O cenário da descontinuação na prática clínica

O uso de agonistas do receptor de GLP-1 (semaglutida) e agonistas duplos GIP/GLP-1 (tirzepatida) revolucionou o manejo da obesidade, demonstrando reduções de peso corporal superiores a 15% em ensaios clínicos pivotais. Contudo, a transição para a prática assistencial real apresenta um desafio persistente: a alta taxa de descontinuação precoce, que frequentemente resulta em reganho de peso e perda dos benefícios cardiometabólicos conquistados.

Um estudo recente de vida real, conduzido em um sistema de saúde integrado, avaliou as causas específicas para a interrupção desses fármacos no primeiro ano de tratamento. Os dados reforçam que, diferentemente do ambiente de ensaios clínicos, a persistência terapêutica é fortemente mediada por fatores extrínsecos ao perfil de segurança do medicamento.

Principais determinantes do abandono terapêutico

A análise de 288 pacientes que descontinuaram o uso de semaglutida ou tirzepatida indicou que a maioria das interrupções não ocorre por falha de eficácia ou eventos adversos insustentáveis, mas por barreiras de acesso. Os achados foram categorizados da seguinte forma:

  • Barreiras financeiras e de seguro (47,6%): Incluindo recusas de cobertura, expiração de cupons de desconto e custo direto proibitivo.
  • Intolerância a efeitos adversos (14,6%): Principalmente náuseas, dor abdominal, vômitos e diarreia.
  • Desabastecimento (11,8%): Falhas na cadeia de suprimentos que impediram a continuidade do preenchimento das prescrições.
  • Outros motivos (26%): Incluindo falta de eficácia, descontinuação por desejo do paciente ou motivos não especificados.
Nota clínica: A descontinuação por questões financeiras tende a ocorrer em fases mais tardias do tratamento, enquanto a interrupção por intolerância gastrointestinal é tipicamente precoce (nos primeiros 3 meses). Identificar o momento da interrupção é crucial para o manejo do paciente.

Implicações para a conduta médica

Para o prescritor, estes resultados sugerem que a educação do paciente deve ir além da titulação de dose e manejo de efeitos colaterais. É fundamental antecipar as barreiras de acesso que o paciente enfrentará:

  • Gestão de expectativas: Discutir desde o início a necessidade de planos de longo prazo para a sustentabilidade financeira da terapia.
  • Monitorização de efeitos colaterais: O foco no manejo de sintomas gastrointestinais nos primeiros 90 dias pode reduzir significativamente o abandono precoce.
  • Comunicação franca: Reconhecer que o reganho de peso pós-interrupção é a regra, reforçando a importância da adesão contínua para a manutenção dos benefícios metabólicos.
Alerta de segurança: A descontinuação abrupta deve ser monitorada, não apenas pelo risco de reganho ponderal, mas pela possível perda de proteção cardiovascular e metabólica, especialmente em pacientes com comorbidades associadas.

Limitações e perspectivas

Embora o estudo forneça uma fotografia valiosa da prática clínica, é importante notar que a generalização dos dados pode ser limitada por diferenças regionais e pelo sistema de saúde específico analisado. A falta de informações detalhadas em parte dos prontuários eletrônicos (cerca de 11%) aponta para a necessidade de um registro mais estruturado sobre os motivos reais de descontinuação nas consultas de seguimento. A otimização da persistência terapêutica exige, portanto, não apenas a eficácia farmacológica, mas uma estratégia integrada que contorne as dificuldades de acesso e os custos elevados da terapia.

Referência: Reasons for Discontinuation of Obesity Pharmacotherapy With Semaglutide or Tirzepatide in Clinical Practice. Hamlet Gasoyan, W. Scott Butsch, et al. Obesity, 2025. DOI: 10.1002/oby.70058