O Desafio da Prescrição Potencialmente Inadequada (PIP)

A gestão da farmacoterapia em idosos é um dos maiores desafios da medicina contemporânea. Com o envelhecimento populacional, a polifarmácia tornou-se a norma, trazendo consigo o risco elevado de Prescrições Potencialmente Inadequadas (PIP). Um comentário editorial recente publicado no Journal of the American Geriatrics Society analisa um estudo de coorte prospectivo que acompanhou idosos por 23 anos, revelando dados alarmantes sobre como a forma como prescrevemos — e o que deixamos de prescrever — impacta diretamente a sobrevida dessa população.

O termo PIP não se resume apenas ao uso de medicamentos que deveriam ser evitados, mas abrange um conceito binário fundamental para a segurança do paciente: as Medicação Potencialmente Inadequadas (PIM) e as Omissões de Prescrição Potencialmente Inadequadas (PPO). O estudo em questão demonstra que ambos os cenários estão robustamente associados ao aumento da mortalidade por todas as causas em idosos residentes na comunidade.

23 Anos de Evidência: A Relação Direta com a Mortalidade

A longevidade do estudo citado (mais de duas décadas de acompanhamento) oferece uma perspectiva única sobre o dano cumulativo da PIP. Diferente de estudos transversais que capturam apenas um momento da terapia, esta análise reforça que a exposição contínua a medicamentos inadequados ou a ausência de terapias preventivas essenciais molda o desfecho clínico a longo prazo. A prevalência de PIP encontrada foi considerada alta, sugerindo que as ferramentas de triagem atuais, embora existentes, ainda não estão integradas de forma eficaz no fluxo de trabalho clínico.

Destaque Clínico: A Prescrição Potencialmente Inadequada (PIP) deve ser encarada como um fator de risco modificável para mortalidade, assim como a hipertensão ou o diabetes, exigindo monitoramento contínuo ao longo do envelhecimento do paciente.

PIM vs. PPO: As Duas Faces da Inadequação

Para o farmacêutico clínico e o geriatra, é vital distinguir os dois componentes da PIP analisados no paper:

  • Medicamentos Potencialmente Inadequados (PIM): São fármacos cujo risco de efeitos adversos supera o benefício clínico esperado para idosos. Exemplos clássicos incluem benzodiazepínicos de meia-vida longa, antipsicóticos para sintomas não psicóticos de demência e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) de uso prolongado.
  • Omissões de Prescrição (PPO): Ocorrem quando um medicamento com indicação clínica clara e evidência de benefício (como anticoagulantes na fibrilação atrial ou estatinas em prevenção secundária) não é prescrito sem uma justificativa plausível.

O estudo destaca que a omissão pode ser tão perigosa quanto a prescrição excessiva. No contexto hospitalar brasileiro, onde a transição de cuidados é muitas vezes fragmentada, o risco de PPO aumenta significativamente durante a alta hospitalar ou transferências entre unidades.

O "Gap" de Implementação: Por que não Desprescrevemos?

Apesar das evidências robustas ligando a PIP à mortalidade, existe um abismo (o implementation gap) entre o conhecimento científico e a prática à beira do leito. O paper discute que a desprescrição — o processo planejado de redução ou interrupção de medicamentos — enfrenta barreiras culturais e estruturais profundas. Muitos prescritores sentem-se desconfortáveis em suspender medicamentos iniciados por outros colegas, ou temem a recorrência de sintomas, mesmo quando o fármaco não é mais necessário.

Alerta de Segurança: A inércia clínica na desprescrição não é uma conduta neutra; manter uma prescrição inadequada é uma decisão terapêutica que carrega riscos documentados de quedas, fraturas e eventos adversos fatais.

Implicações para a Prática Farmacêutica e Gestão Hospitalar

Para os gestores e profissionais de saúde no Brasil, os achados reforçam a necessidade de protocolos de revisão da farmacoterapia baseados em critérios validados, como os Critérios de Beers ou o instrumento START/STOPP. A implementação dessas ferramentas não deve ser vista apenas como uma tarefa administrativa, mas como uma intervenção direta na redução da mortalidade institucional.

  • Revisão Farmacêutica na Admissão: Identificar PIMs que o paciente já traz de casa e discutir a desprescrição com a equipe médica.
  • Monitoramento de PPOs: Garantir que terapias essenciais não sejam perdidas durante episódios agudos de internação.
  • Educação do Paciente: Envolver o idoso e seus cuidadores no processo de desprescrição, explicando que "menos pode ser mais" para a sua segurança e qualidade de vida.

Limitações e Perspectivas

Embora o estudo de 23 anos seja poderoso, os autores reconhecem que a implementação da desprescrição requer uma mudança de paradigma: sair do foco exclusivo na doença para um foco na funcionalidade e na priorização de metas de vida do idoso. A principal limitação reside na dificuldade de traduzir grandes dados epidemiológicos em decisões individuais complexas, onde a multimorbidade muitas vezes torna as diretrizes clínicas contraditórias.

Referência: From Evidence to Impact: Bridging the Implementation Gap in Geriatric Deprescribing. Songhe Chen, Kai Chen. Journal of the American Geriatrics Society, 2025. DOI: https://doi.org/10.1111/jgs.70207