Uma Nova Prioridade no Diabetes

A Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD), anteriormente conhecida como NAFLD, deixou de ser uma condição subestimada para se tornar um dos pilares de atenção no manejo do diabetes mellitus tipo 2 (DM2). Com uma prevalência que atinge cerca de dois terços dos pacientes com DM2, a MASLD não deve mais ser vista apenas como um achado incidental de imagem, mas como uma complicação crônica que exige monitoramento ativo, tal como já realizamos para retinopatia, nefropatia e neuropatia.

Ponto de Atenção Clínica: A nomenclatura MASLD substitui o termo NAFLD, enfatizando o componente metabólico como o principal driver da patologia. O foco agora é identificar precocemente a progressão para esteato-hepatite (MASH) e fibrose avançada, estágios onde o risco de cirrose e carcinoma hepatocelular (CHC) torna-se clinicamente relevante.

Estratificação de Risco: Quando Rastrear?

O consenso da American Diabetes Association (ADA) reforça que o rastreio deve ser rotina para pacientes com DM2 ou pré-diabetes, especialmente aqueles com obesidade associada. A inércia diagnóstica é o principal obstáculo para evitar desfechos hepáticos fatais. O médico prescritor deve integrar a avaliação do risco de fibrose na consulta de rotina, utilizando ferramentas de estratificação validadas antes que o paciente apresente sinais clínicos de descompensação hepática.

Impacto Multissistêmico da MASLD

A relevância clínica da MASLD transcende o fígado. A condição está intimamente ligada ao aumento da morbidade por doença cardiovascular aterosclerótica e neoplasias extra-hepáticas. Além disso, a presença de esteatose hepática prejudica o controle glicêmico, criando um ciclo vicioso onde a disfunção metabólica hepática acelera a progressão do diabetes e suas complicações. O controle intensivo da glicemia, embora fundamental, deve ser acompanhado de estratégias que abordem a saúde hepática de forma direta.

Alerta de Segurança: A avaliação do consumo de álcool é mandatória no manejo da MASLD. O consumo, mesmo que moderado, pode exacerbar a progressão da fibrose em pacientes já vulneráveis pela disfunção metabólica, sendo necessário aconselhamento rigoroso e individualizado para mitigar danos hepáticos adicionais.

Mudanças na Conduta e Monitoramento

A mudança de paradigma proposta pela ADA exige que o médico prescritor adote uma postura proativa no manejo:

  • Implementação de Rastreio: Incorporar testes de fibrose (como scores não invasivos ou elastografia) no protocolo de acompanhamento anual do paciente diabético.
  • Estratificação de Risco: Identificar pacientes com alto risco de progressão para MASH e cirrose, priorizando intervenções precoces nestes subgrupos.
  • Abordagem Interprofissional: A gestão da MASLD exige uma visão integrada, envolvendo endocrinologistas, hepatologistas e nutricionistas, focando tanto na reversão do dano hepático quanto na estabilização metabólica.
  • Foco Preventivo: A meta final é a mudança no padrão de cuidado para que a cirrose por MASLD seja prevenida através de diagnóstico precoce e intervenções terapêuticas oportunas.

O consenso destaca que a escassez de conhecimento sobre os riscos hepáticos em pacientes com DM2 ainda é um desafio. O papel do prescritor, portanto, é central na educação do paciente e na aplicação sistemática dos critérios de rastreio, garantindo que o cuidado ao diabetes contemple a totalidade das complicações metabólicas.

Referência: Metabolic Dysfunction–Associated Steatotic Liver Disease (MASLD) in People With Diabetes: The Need for Screening and Early Intervention. A Consensus Report of the American Diabetes Association. Kenneth Cusi, Manal F. Abdelmalek. Diabetes Care, 2025. DOI: https://doi.org/10.2337/dci24-0094