O Novo Cenário Terapêutico
O tratamento da doença de Alzheimer atravessa uma mudança de paradigma. Historicamente focado no manejo sintomático com inibidores da colinesterase e memantina, o campo agora integra anticorpos monoclonais anti-beta-amiloide, como lecanemab e donanemab. Embora estas terapias marquem um avanço sem precedentes ao retardar a progressão da doença, sua introdução impõe desafios complexos de segurança e monitoramento para as equipes multidisciplinares.
Sinal de Segurança: O Risco de ARIA
O principal sinal de segurança associado a esses novos imunoterápicos é o aparecimento de anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide, conhecidas pela sigla ARIA (do inglês Amyloid-Related Imaging Abnormalities). As ARIA manifestam-se radiologicamente como edema cerebral ou efusão sulcal (ARIA-E) ou como manifestações hemorrágicas (ARIA-H), como micro-hemorragias e siderose superficial cortical.
Monitoramento e Vigilância Clínica
A segurança do paciente sob terapia com anticorpos monoclonais exige um protocolo rigoroso. Recomenda-se a realização de RMs seriadas, preferencialmente no mesmo aparelho, para detectar precocemente alterações em relação ao exame basal. Caso a ARIA seja detectada, algoritmos de decisão clínica baseados na gravidade radiológica e nos sintomas do paciente orientam a interrupção ou descontinuação do tratamento.
- Reações Infusionais: Aproximadamente 1 em cada 13 pacientes tratados com lecanemab e 1 em cada 4 com donanemab apresentam reações agudas à infusão, sendo necessário monitoramento nas primeiras horas.
- Sintomas Neurológicos: Cefaleia, confusão mental, distúrbios visuais e convulsões são sintomas que exigem avaliação neurológica imediata, pois podem indicar ARIA clinicamente significativa.
Desafios na Prática Clínica
A translação dos resultados dos ensaios clínicos para a prática real é desafiadora. A maioria dos estudos excluiu pacientes com comorbidades múltiplas ou fragilidade acentuada, populações frequentemente atendidas no cotidiano hospitalar. Além disso, a administração intravenosa periódica e a necessidade de infraestrutura para RMs frequentes criam barreiras de acesso e exigem uma organização robusta dos sistemas de saúde.
Incertezas e Perspectivas
Apesar do benefício demonstrado na redução da progressão do declínio cognitivo e funcional, a magnitude do efeito levanta debates sobre a "significância clínica" para cada paciente. A evolução dos biomarcadores plasmáticos promete, no futuro, facilitar o monitoramento e otimizar a tomada de decisão, potencialmente reduzindo a necessidade de exames invasivos ou dispendiosos como o PET-scan ou a análise de líquor. O sucesso desta transição depende de um esforço coordenado entre neurologistas, radiologistas, farmacêuticos clínicos e gestores hospitalares.
Referência: Treatment for Alzheimer's disease. Nick C. Fox, Christopher R S Belder. The Lancet, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/s0140-6736(25)01329-7
